Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia




Marina Colasanti 

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão. 

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia. 

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração. 

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez irá pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra. 

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos. 

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta. 

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado. 

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.


Marina Colasanti é autora é jornalista e escritora. O texto acima foi extraído do livro "Eu sei, mas não devia", Editora Rocco - Rio de Janeiro, 1996, pg 9. 


Postado no Richard Jakubaszko em 12/05/2015

Vi no Senado paixões sem compaixão




Dom Orvandil


Neste dia sentei-me estranhamente à frente da TV Senado para assistir a inquirição que os senadores e senadoras fizeram do jurista gaúcho-paranaense Luiz Edson Fachin.

Impressionei-me com a cultura do candidato a ministro do STF. É realmente um homem preparado para atuar na instância mais alta da justiça brasileira.

Fachin demonstrou capacidade para enfrentar as piores barbaridades provindas de senadores preconceituosos, maus e de tons golpistas.

Claro, muitos dos participantes daquele parlamento são pessoas capacitadas e comprometidas com o Brasil e sua democracia.

Impressionei-me com as enrolações e má fé do “senhozinho” Malta, do Espírito Santo. Trata-se de um desses membros conservadores de igreja evangélica, homofóbico e “apóstolo” do escárnio do povo brasileiro. O tom arrogante e autoritário que adotou num discurso vazio e sem conteúdo foi de afronta à cultura jurídica e humanista do dr. Fachin. Impressionante como um ser humano faz questão de ser ridículo no abuso da falta de capacidade. 

Mas o espetáculo de grosserias correu por conta do “seu” Aloysio Nunes de São Paulo, com sua falta de compostura ao ouvir o futuro ministro de costas para ele. Seu tom ao ser o primeiro a perguntar foi de arrogância e de conteúdo paupérrimo e sem sentido, tirado de letra pelo grande jurista. 

O “seu” Aloysio tem uma cara de quem nunca sabe onde e porque está. Isso foi ainda mais contundente diante da sabedoria do dr. Fachin. Tanto que derrotado logo saiu, talvez nem mesmo ele saiba para onde. Lamento que o senador por São Paulo envergonhe tanto seus eleitores e nosso País. 

Mas o pior foi o senador vergonha de Goiás, o “seu” Ronaldo Caiado. Esse deu show de desrespeito, de machismo e de afronta democrática.

O “seu” Ronaldo, aqui em Goiás muito conhecido dos sindicalistas e trabalhadores rurais como jagunço que frequentou universidade, que se acha dono do Estado, como se fosse uma de suas propriedades rurais e que todos sãos seus escravos, ganhou o prêmio no espetáculo das bobagens e desrespeitos.

O “seu” Caiado, cujo jeito de ser deve ser bem explicado pela psiquiatria e pela psicanálise, ultrapassou o tempo da fala, urrou contra as senadoras em demonstração de machismo ou de impotência masculina, ofendeu países latino americanos e lideranças a cujos pés e história jamais chegará com seu rancor e seu ódio. 

Caiado, de posse de uma cara doentia emocionalmente e de uma histeria sem limites, se aproveita sempre das oportunidades dadas por um povo que o escolheu mal para representar Goiás para atacar a democracia e demonstrar medo venenoso dos avanços sociais e das reformas, teme ser expulso das terras usadas para enriquecer e para escravizar trabalhadores, matar indígenas e pisar em direitos dos verdadeiros produtores de alimentos.

O “seu” Caiado, que adora repetir que é médico ortopedista, defende caninamente os interesses coloniais de predadores sociais e rurais, em insistentes malversações do poder parlamentar, que ele usa de modo faccioso e fanático.

A falta de respeito do “seu” Ronaldo com o Estado de Goiás e com este povo estende-se à América Latina quando ofende a memória de Simon Bolivar e de Hugo Chaves.

O ruralista metido a médico adora encher a boca espumante de ódio para dizer que tudo o que se pretende em termos de justiça social nos campos e em termos de reforma agrária é bolivariano e chavista.

Ora, a quem o raivoso pretende amedrontar com suas aleivosias? 

Simon Bolívar, cujo rastro o ciumento e odioso Caiado jamais pisará por ser indigno, apesar de nascer aristocrata foi um dos maiores protagonistas da história latino-americana. Isso o demonstrou ao comandar as revoluções de independência da Venezuela, Colômbia, Equador, Peru e Bolívia. 

Diferentemente de “seu” Ronaldo, que não sente nada além da sede de matar trabalhadores rurais e indígenas, recebeu excelente educação de seus tutores e conheceu a cultura humanista em profundidade.

Eis a diferença, enquanto o “seu” Caiado, com sintomas psicóticos explícitos e de marcas ignorantes, o grande Bolívar, que ele não sabe direito quem foi, foi estudioso de filosofia e literatura Greco-romana e iluministas. As mesmas que Marx estudou.

Ao estudar em fontes humanistas e conhecer as causas evolucionárias de independência de colônias massacradas por impérios gananciosos, apreciados por atrasados como o “seu” Caiado, Simón Bolívar se tornou brilhante humanista e farol da liberdade latino americana. Só cães sem raça latem contra ele e tentam morder sua biografia de estadista e líder da liberdade. 

Bolívar lutou pela independência dos povos e sonhou com uma Pátria Latino America, bem antes da União das Repúblicas Soviéticas Socialistas com Lênin, enquanto o “seu” Caiado sonha com bois, muitos bois e escravos pobres e miseráveis assaltados por gente como ele. 

Ah, mas o “seu” Ronaldo, médico ortopedista, odeia a causa de Bolívar e a quer longe de nosso povo. O “seu” Caiado quer as trevas e não a luminosidade inteligente.

Hoje, no seu ódio irracional e bestial, o “seu” Caiado, que só entende de ossos dos sem terra, dos indígenas e dos posseiros mortos, mais uma vez ofendeu o chavismo venezuelano, no esforço próprio dos vendidos para defender o imperialismo em prejuízo de nossa América Latina. 

Ora, quem é o ortopedista Caiado, aquele que ama os ossos dos perseguidos assassinados, perto da sagrada memória do grande Hugo Chávez, cuja morte é suspeitíssima?

Hugo Chávez é o grande herói venezuelano que ousou peitar o imperialismo ao canalizar os lucros do petróleo de seu País na elevação da qualidade de vida de seu povo, por quem e com quem lutou até a morte, ao contrario dos governos anteriores capachos dos Estados Unidos, que o entregaram em troca de concentração de riquezas e de renda enquanto o povo morria de fome e na miséria. 

O “seu” Ronaldo Caiado, o que ama ossos dos feitos defuntos feudais, prefere muito mais o regime dos que enriquecem enquanto o povo empobrece. Por isso odeia Hugo Chávez e mente contra a democracia venezuelana, que se centra na emancipação popular, sem as máscaras dessa falsa democracia brasileira que permite vultos do atraso como o médico amante de ossos dos pobres.

O “seu” Caiado, ex-amigo e companheiro do seu comparsa Demóstenes Torres, que o denunciou, pena que tudo barrou nas bravatas do corrupto, fez um papelão no Senado, cuja Comissão de Justiça que ele não integra, se reuniu para examinar um dos candidatos mais preparados, indicados pela Presidenta Dilma.

Enquanto a Nação assistia pela TV Senado argumentos sérios e apoios incontestáveis ao dr. Luiz Edson Fachin, o “seu” Ronaldo Caiado passava papel de cão envenenado de ódio. 

Creio que Fachin logo percebeu o quanto é fácil argumentar e desconstruir bobagens sem base, frutos de uma mente recheada de chifres de bois e de ossos dos indígenas e dos posseiros perseguidos por ruralistas gananciosos.

De um lado a paixão que comanda escravos e mata Zumbis. Aliás, a palavra paixão tem no grego a mesma significação para loucura. A palavra “pathos” de onde deriva patológico, define bem os sentimentos desvairados dos que odeiam e babam de desejo de eliminar as fontes que geram sociabilidade e fraternidade sem injustiças, como o “seu” Caiado. 

De outro lado, a esperança em uma justiça com compaixão e amor ao próximo, parece-me que bem sinalizada pelo futuro ministro Luiz Edson Fachin.


    Dom Orvandil


Editor do blog Cartas e Reflexões Proféticas, presidente da Ibrapaz, bispo da Diocese Brasil Central da Igreja Anglicana e professor universitário.



Postado no Brasil247 em 13/05/2015




Você e a sua consciência





Morel Felipe Wilkon

Até hoje a maior parte das pessoas com quem você convive acreditam num Deus que pune, num Deus que nos castiga pelas nossas faltas. Já comentei aqui, outro dia, que divinizaram Jesus e humanizaram Deus. Essa ideia que fazem de Deus é humana demais. 

Emprestaram a Deus todas as características dos homens e das mulheres deste planeta rebelde. Deus não é homem, não é mulher, não é pessoa, não é computador, não está nos espionando o tempo inteiro pra ver se nos pega em falta.

Deus se manifesta através de nós, e age através de Suas Leis. Suas Leis estão impressas em nossa consciência. Temos em nosso íntimo uma bússola apontando sempre para o que é certo, para o que deve ser feito. Levamos milênios para aprender a usar essa bússola. Depois que aprendemos, cada vez que a desobedecemos, nos desorganizamos internamente. Essa bússola é a consciência. 

Toda vez que fazemos algo que sabemos não ser o correto, tornamos nossos pensamentos confusos, sentimos medo. Medo de sermos descobertos, medo de sermos punidos, medo de que nos aconteça a mesma coisa que fizemos.

Essa não é uma questão religiosa. Isso independe de crença, prescinde da ideia de Deus. Qualquer ateu mais observador sabe que existe um mecanismo interno a que chamamos consciência que nos avisa quando devemos corrigir a rota de nossos atos.

O mecanismo da consciência é idêntico ao mecanismo da dor. Para quê serve a dor física? Para nos alertar que devemos corrigir alguma coisa em relação ao nosso corpo. Imagine se você não sentisse dor. Iria caminhar sobre cacos de vidro e se esvair em sangue sem perceber. Queimaria sua mão no fogo até torrar e não iria notar. 

A dor física serve para nos mostrar que alguma coisa que temos praticado com nosso corpo não está certa, não deve ser repetida, pois coloca a integridade do corpo em risco.

A consciência funciona exatamente da mesma maneira. Faça alguma coisa que você sabe que é contrária aos seus princípios, qualquer coisa que você intimamente saiba que não é certo, e a consciência inevitavelmente irá lhe alertar, por meio da dor moral. Essa dor pode se manifestar de várias formas: pelo medo, pela ansiedade, pelo remorso, pela tristeza, pela falta de confiança em relação a si mesmo.

Não desafie sua consciência. Não tente enganá-la, ela não se deixa enganar. Não caia no erro infantil de achar que vale a pena burlar a consciência por uma causa aparentemente grande. Não há preço que pague a tranquilidade da consciência. Não há preço que pague a autoconfiança propiciada pela obediência à consciência.

Você é espírito imortal em busca da reforma íntima. Não deixe passar mais uma reencarnação sem levar a sério o que manda a consciência.

Todos nós desobedecemos a consciência muitas vezes em nosso passado milenar. Que desta vez seja diferente. Não importa a sua idade, não importa a que altura do campeonato da vida você esteja. Você terá que fazer isso mais cedo ou mais tarde. Pra quê esperar mais?


Postado no Espírito Imortal


Coisas que você deve parar de esperar com relação aos outros




MARC CHERNOFF

As maiores decepções que sofremos são frequentemente o resultado de um direcionamento inapropriado de expectativas. Isto é especialmente verdadeiro quando o assunto são os nossos relacionamentos e interações pessoais.

Quando percebemos melhor o quanto de expectativas infundadas costumam preencher nossas rotinas, podemos diminuir significativamente sentimentos negativos desnecessários como a frustração.

O que significa que é hora de …

1. Parar de esperar que as pessoas concordem com você

Não deixe que a opinião dos outros faça com que você se esqueça do que existe de mais importante em sua vida. Não estamos neste mundo para viver de acordo com as expectativas dos outros, e você também não deve esperar que os outros vivam de acordo com as suas expectativas.

Na verdade, quanto mais você assumir e aprovar as suas próprias escolhas, menos precisará da aprovação dos outros.

Não se compare aos outros. Não desanime por observar o progresso ou sucesso de pessoas de fora. É preciso seguir o seu próprio caminho e permanecer fiel ao seu propósito. Ter sucesso nada mais é que administrar a sua vida ao seu modo, sendo feliz à sua maneira e percebendo seus próprios avanços.

2. Parar de esperar que os outros o respeitem mais do que você mesmo se respeita

A verdadeira força está na alma, não nos músculos. É preciso ter ciência e acreditar naquilo que você verdadeiramente é e agir de modo condizente com esse entendimento.

É necessário olhar-se no espelho e dizer: “Eu me quero bem e de agora em diante eu vou tratar-me com amor.” 

É importante ser gentil com os outros, mas é ainda mais importante ser bom para si mesmo. Quando você tem autoestima e se respeita, você dá a si mesmo a oportunidade de ser feliz. Quando você está feliz, você se torna um amigo melhor, um melhor membro da família, uma pessoa melhor.

3. Parar de esperar (e de necessitar) que os outros gostem de você

Você pode se sentir indesejado e indigno de uma pessoa, mas lembre-se que você é inestimável para diversas outras. Nunca se esqueça do seu valor. Passe algum tempo com aqueles que você valoriza. Não importa o quanto você é bom para as pessoas, sempre haverá uma pessoa negativa que fará de tudo para destruir sua autoestima. A melhor coisa a fazer é ignorar e seguir adiante.

Neste mundo insano em que vivemos, a batalha mais difícil é aquela que você trava cotidianamente consigo mesmo. Ser original, ser autêntico, tem o seu preço e nem todos vão gostar de você. Talvez alguns digam que você é “diferente”. Nisso não existe lógica alguma. Muitos o odiarão e tantos outros te amarão pelos mesmos motivos.

4. Parar de esperar que as pessoas sejam como você imaginou que elas fossem

Amar e respeitar os outros significa permitir que elas sejam eles mesmos. Quando você parar de esperar que as pessoas sejam de uma certa maneira, você pode começar a apreciá-las.

Pouco realmente sabemos da maioria das pessoas, e desse pouco certamente grande parte ainda é parte do nosso imaginário e não propriamente daquilo que elas de fato são.

Todo humano tem algo notável e infinitamente belo e você só tem um par precário de olhos para enxergá-lo. Conhecer o outro leva tempo… Quanto mais você conhecer alguém, quanto mais você será capaz de olhar além de sua aparência e ver a sua verdadeira beleza.

5 – Parar de esperar que eles saibam o que você está pensando

As pessoas não podem ler mentes. Eles nunca vão saber como você se sente a menos que você diga a elas. Seu chefe? Sim, ele não sabe que você está esperando para uma promoção porque você não lhe disse nada. E aquele bonito rapaz ou moça com quem você não falou em razão da sua timidez? A outra pessoa vai adivinhar a sua admiração e o seu encantamento? Obviamente, não.

Na vida, você tem que se comunicar com os outros regularmente e de forma eficaz. E, muitas vezes, você tem que tomar a iniciativa e falar as primeiras palavras. Você tem que dizer às pessoas o que você está pensando.

6. Parar de esperar que o outro mude

Se há um comportamento específico por parte de alguém de quem gosta e que você espera que isso mude ao longo do tempo, saiba que provavelmente nada mudará. Se você realmente necessita dessa mudança é necessário ser honesto e colocar todas as cartas na mesa para que o outro tenha conhecimento do que está acontecendo.

Na maior parte das vezes, porém, você não pode e nem deve tentar mudar as pessoas. Ou você aceita cada qual como ele é ou terá que aprender a viver sem eles. Isso pode parecer duro, mas não é. Quando você tenta mudar as pessoas, muitas vezes elas permanecem as mesmas, mas quando você não tenta mudá-las – quando você as apoia e lhe dá a liberdade de serem como elas são – a mudança, se vier, será gradual e ainda mais bonita.

7. Parar de esperar que eles estejam sempre bem

Uma dica: seja mais amável do que necessário, pois todas as pessoas que você encontra pela vida estão passando por algum tipo de batalha interior, assim como você. 

Cada sorriso ou sinal de força do outro talvez oculte uma luta interior tão complexa e extraordinária como a que você hoje vivencia.

Apoiar e ajudar outras pessoas é uma das maiores recompensas da vida. Isso acontece naturalmente, porque todos nós compartilhamos sonhos, necessidades e lutas muito parecidos. Uma vez que aceitamos isso, o mundo passa a ser um lugar onde podemos olhar alguém nos olhos e dizer: “Eu me sinto perdido no momento,” e eles podem acenar com a cabeça e dizer: “Eu também”, e isso será normal. Porque não estar bem o tempo todo é algo perfeitamente humano.

Para finalizar

As pessoas raramente se comportarão exatamente do jeito que você previu. O melhor a fazer é nutrir esperança pelo melhor, mas estar preparado para toda e qualquer acontecimento.

Afinal, a magnitude de sua felicidade é diretamente proporcional aos seus pensamentos e é você quem deve escolher o quê e como pensar sobre todas as coisas. 

Mesmo que uma situação ou relacionamento não seja exatamente como você esperava, não se esqueça de que tudo o que vivemos nos faz sentir algo novo e nos ensina, sempre, novas verdades.



Traduzido e adaptado exclusivamente para a Conti Outra



Troco toda e qualquer certeza por um segundo de leveza




André J. Gomes

Não, eu não tenho certeza de nada. Nada. Aliás, eu não quero, obrigado. Tem gente demais por aí exibindo convicção sobre tudo. Gente demais pontificando sobre as doenças do gado, os novos astronautas, o cio da capivara. Gênios seguros colecionando certezas sobre o que, no fundo, desconhecem. Façam bom proveito!

Daqui, do meu canto no mundo cercado de dúvidas, tenho tantas questões a responder, tanta dívida a pagar! Mas certeza, mesmo, nenhuma. Quando muito uma impressão aqui, um palpite ali, uma intuição acolá. E todas elas me sopram no ouvido que as perguntas mais fundas e os encargos mais altos não pesam tanto quanto a menor convicção. E que acumular certezas na vida é como arrastar uma velha locomotiva morta num terreno baldio.

Não tem jeito. Uma hora isso tudo pesa. Isso. Você sabe o quê. Essa sanha por razão, esse empenho por serventia, utilidade, importância. Nosso ímpeto de glória, nossa corrida extenuante, nosso esforço por predileção e prestígio, as infinitas tentativas de acerto, essa peleja contra o tempo, a idade, o outro, a vida, a morte, o mosquito da dengue e o leão do imposto de renda, o bandido na esquina e o vilão da novela. Isso tudo já pesa tanto! Para quê aumentar o fardo com velhas certezas esfarelando ferrugem?

Está certo. Eu compreendo que tanta gente por aí se refestele portando a verdade das coisas, o latifúndio das crenças, o veredicto instantâneo de todos os crimes. Entendo de longe o prazer de exibir tudo isso pendurado no pescoço como o maior diamante do mundo. Mas eu ainda prefiro a leveza das dúvidas corriqueiras.

Prefiro, sim, o movimento incerto de um dia depois do outro. Escolho não saber do futuro mais que o imediato instante seguinte. Não me interessa por enquanto o que vai na última página do livro, mas tenho aqui uma impressão humilde de que o que lá estará depende do que eu fizer agora.

Não, eu não sei o quanto vai chover amanhã. Mas sinto alegria de olhar a água no pote de sorvete roído nas bordas, esperando mansa as lambidas largas do vira-lata que vê em mim seu melhor amigo.

Que sejam felizes os oráculos, suas certezas profundas como os pires e sua sabedoria de papagaio. Eu prefiro a leve e boa descoberta do que repousa debaixo dos móveis, nos vãos do sofá, dobrado entre as páginas de um livro cuja leitura retomamos de quando em vez.

Não, eu não tenho certeza de nada.


Postado no Bula


Mãe do contrário




Carolina Vila Nova

Como mãe você sonha que seu filho vai ser médico. Seu filho sonha ser cabeleireiro.

Você sonha que sua filha vai ser modelo. Sua filha sonha com matemática.

Você sonha que seus filhos serão ricos. Seus filhos só querem ser felizes.

Eu e minha mãe somos muito diferentes. Eu e meu filho também.

Minha mãe faz tudo para os filhos, abdicou de sua vida para os mesmos. Eu não abro mão da minha. Meu filho ainda não tem filhos.

Minha mãe nunca teve vida noturna. Eu adoro uma balada. Meu filho é mais caseiro.

Minha mãe não deixa de ir à igreja orar pelos seus filhos e pelos filhos do outros. Eu oro em casa. Meu filho no momento não ora.

Minha mãe é conservadora. Eu sou vida louca. Meu filho às vezes parece um monge.

Minha mãe sonhou me ver casada, certinha e recatada. Casamento pra mim não deu. Meu filho ainda não fala sobre isso.

Nunca fui o que minha mãe esperava que eu fosse, mesmo assim ela tem o seu orgulho. Meu filho não é como eu achei que ele seria; eu não me importo. Eu possivelmente não sou o que meu filho esperava.

Minha mãe se chateia pela inconstância de nossas conversas. Eu me chateio por meu filho não conversar tanto comigo. Meu filho, por sua vez, deve se chatear porque a mãe fala (e escreve) demais.

Quando minha mãe quer falar de um sermão, eu quero falar de uma festa, meu filho de um vídeo de ioga.

Quando minha mãe sonha pra mim um casamento ou um príncipe encantado, eu estou sonhando com o Gianecchini. Meu filho está meditando.

Uma é par, a outra é ímpar, o outro é número primo.

Amor não precisa de afinidade. Amor está na certeza da aceitação, do orgulho, da confiança e do bem recíproco que se deseja um ao outro. Amor se encontra na gratidão, pelo simples fato do amor ter existido. Na divergência dos sonhos que se tornaram outros.

Nesse dia das mães, para todas as mães diferentes de seus filhos: o meu mais sincero “Parabéns”!

Porque o amor não é mais fácil quando há diferenças, mas pode ser que seja o mais forte que existe, pois nos obrigada a lutar contra tudo o que acreditamos, em nome de uns e outros, que acreditaram em tudo ao contrário.

Feliz dia das mães pra você, que assim como a minha, teve que amar uma filha difícil, diferente do que ela esperava.

O amar o cabeleireiro no sonhado médico, a modelo na professora de matemática, a (nada) “tímida e recatada” na escritora atrevida que se formou.

Parabéns à todas as mães de seus contrários!

E de seus raros iguais!

Parabéns, mãe!


Postado no Conti Outra